Não batam nas crianças, uma dívida com a vida
Artigo escrito por Marcos Antonio Ribeiro Moraes - Psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA), professor da PUC - Goiás, Ọmọriṣá do Ilé Asé Òpó Olú Odé Aláàyédá.
A agressão à infância e adolescência, segue como grande desafio. Temos provas atuais disso, com os trágicos ataques terroristas em escolas, nas diferentes regiões do Brasil. De tal forma, esse assunto continua sendo de especial importância , para o que se refere à educação e a clínica. A esse respeito, Freud tem uma contribuição singular, ao investigar como se sustenta essa modalidade de fantasia. Ao escrever em 1919, no período entre a primeira e a segunda guerra mundial, o “Bate-se numa criança”, ele interroga a relação entre o masoquismo e a fantasia de bater numa criança, ou de ver uma criança sendo surrada. Fantasia essa que muitos de seus pacientes relatavam em análise. Nesse esforço de relermos a questão do narcisismo, se torna relevante a articulação desse tema com a questão da agressividade e seu impacto no laço social, questão que se choca com muitas aporias e relativizações, diante das quais nem Freud e nem Lacan se deixaram abater.

Freud já vinha obtendo desde “Uma a introdução do narcisismo”, entendimentos, sobre a relação entre narcisismo, sadomasoquismo e agressividade. Já havia compreendido a agressividade e o ódio, como parte da pulsão de autoconservação, sustentando o “ser-no-mundo narcisista” – que vê com maus olhos toda alteridade. Em “A pulsão e seus destinos”, ele afirma, “Sua majestade o sujeito narcisista, esforça-se por transformar em si mesmo tudo que vê ou toca, ignorando, ou mesmo abominando, tudo que não seja Eu. A hostilidade está no fundamento da relação do sujeito com toda e qualquer instância alteritária, provém do repúdio primordial do ego narcisista ao mundo externo com seu extravasamento de estímulos”.
Mas é somente após toda essa trajetória, que Freud chegará a postular - em “Além do princípio do prazer”, e sobretudo em “O id e ego” - que um supereu, enquanto instância moral, aliado a pulsão de morte, também pode se levantar como força mortífera e destrutiva, contra toda forma de alteridade e diferença, na defesa de seu ideal de Eu. A partir de então passamos a compreender um modo de fantasia que, pode se expressar no gozo em causar ou sofrer dor, num gozo onde predomina pulsão de morte. Satisfação essa, que sustenta o par sadomasoquista, diferentes modalidades de perversão, presentes inclusive no ato de educar, nas guerras entre os povos e na constituição de laços sociais pautados, em ideais de eu e de éticas narcisistas. Em “Alguns complementos a interpretação dos sonhos (1925), Freud afirma, “ O narcisismo ético da humanidade deveria contentar-se em conhecer que o fato da deformação nos sonhos, assim como a existência de sonhos de ansiedade e sonhos de punição, fornece uma prova tão clara de sua natureza moral quanto a interpretação de sonhos proporciona da existência e força de sua natureza má.”

Lacan por sua vez, em, “A agressividade em psicanálise”, texto 1948, dirá, “a agressividade é a tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico, e que determina a estrutura formal do Eu do homem e do registro de entidades de seu mundo”. Narcisismo e agressividade, se situam, portanto, no campo da alteridade, da diferença entre o eu e o outro. No seminário, “O simbólico, o imaginário e o real”, Lacan entra nessa questão da relação entre a criança e o adulto, dizendo, “Ali onde a imagem especular é aplicada ao máximo, o sujeito não passa do reflexo de si mesmo. Daí sua necessidade de constituir um ponto que constitua o que é transcendente. É justamente o outro como outro. (...) Para a criança, os adultos são transcendentes na medida em que são iniciados. O mais curioso é que as crianças não são menos transcendentes para os adultos. Por um sistema de reflexão característico de toda relação, a criança torna-se objeto de todos os mistérios para os adultos. Eis a sede dessa confusão das línguas entre crianças e adultos que devemos levar em conta quando se trata de intervenção com crianças.”
Recentemente tive a Alegria de participar, em minha casa de Axé, o Ilé Asé Òpó Olú Odé Aláàyédá, de um culto de matriz africana, muito tradicional na Bahia, o Culto de Babá egun, no qual ocorre a manifestação de ancestrais, que vêm dançar e trazer ensinamentos para a comunidade. Me tocou profundamente a insistência com a qual os Babás, diziam, “cuidem das crianças, não batam nas crianças”. Na sequência um desses país ancestrais chamou para perto de si todas as crianças que estavam presentes, depois de abençoá-las, pediu que elas tomassem em suas mãos os atabaques, o agogô e tocassem, para ele dançar. E então elas tocaram com maestria e Ele dançou com alegria. Essa cena teve para mim uma força reparadora de outras cenas, para mim traumáticas, a de um ex-presidente colocando arma de fogo na mão de uma criança, em seus braços. E uma outra bem recente, que mostra, num clube de tiros, do interior de Goiás, adultos ensinando crianças a manusear armas para se defenderem, caso ocorressem ataques terroristas em suas escolas. Os chamados “atiradores mirins”.

Não batam nas crianças, deixem que elas façam ressoar os atabaques! Poucas palavras e uma cena profunda que se inscreveu em mim, estabelecendo uma significativa ponte entre ancestralidade e infância, uma metáfora do ato de educar e clinicar, como um lugar de respeito ao sujeito, a toda alteridade e transcendência entre o eu e o outro. Uma ponte necessária para que a história, a cultura não sejam apagadas pela violência e nem percam a força de sustentação de nosso pacto civilizatório. Essa ponte me pareceu figurada nesse toque dos atabaques. Pois, no candomblé, é por meio da música que se veicula a transmissão dos ensinamentos ancestrais, transmissão oral por excelência. Onde, cuidar de uma criança é cuidar da história e memória ancestral, como de um rio , que não pode ser interrompido, com toda a sua riqueza simbólica. Educar as crianças é uma questão que se dirige a uma família, às diferentes instituições e a sociedade como um todo. Como se encontra dito no conhecido proverbio africano, “é preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança”. Se partimos do entendimento que essa é uma tarefa comum a todos e que cada um de nós, tem a predisposição a sermos tomados por um gozo mortífero, a nos defendermos de forma agressiva frente à alteridade, vale sempre nos interrogarmos sobre o modo como nos sustentamos no lugar de suposto saber e seus efeitos, na transmissão e nas diferentes formas de atos constitutivos do sujeito.
Como lidar com a transmissão, do saber herdado? Lacan denomina essa tarefa de transmissão de uma “dívida simbólica” ou “ dívida de vida”. Em seu entendimento, não podemos reembolsar nossos pais, por essa dívida, mas sim transmiti-la à próxima geração, para que ela produza algo que equivalha a vida recebida. Com base em Lacan , parece possível entender que se trata de uma transmissão a se dar no campo da linguagem, do rito, ritmo de nossas tradições, do saber cuidar de si mesmo, do outro e de todo ecossistema. Transmissão de significantes que autorizem e apontem as possiblidades de amar e se sustentar no campo do desejo, do impossível que caracteriza o real, o transcendente . E transmissão de significantes referidos às interdições de gozos perversos, incestuosos e mortíferos. Isso é o que há de mais necessário para tornar-se humano e se manter no pacto civilizatório. Para Lacan, a dívida simbólica é diferente de uma dívida, puramente superegoica, no seu modo rígido, tirânico, feroz, baseado na culpa, defesa contra o outro. Mas ao contrário trata-se de atuar no registro simbólico, de forma lúdica, poética, para que a criança possa se organizar pulsionalmente em seu corpo, ritmo e tempo. Por ocasião da última edição do Acampamento Terra Livre, das organizações indígenas, em Brasília, o músico e DJ Alok, em seu pronunciamento na câmera dos deputados, lançou o seguinte apelo, “Não é sobre qual país queremos deixar para os nossos filhos, mas sobre quais filhos vamos deixar para este país".

